Opinião

Reforma Tributária: decisão sobre Simples Nacional pode definir sobrevivência das pequenas e médias empresas

A escolha entre permanecer “por dentro” do DAS ou migrar para o recolhimento “por fora” deixou de ser burocrática: agora, é questão de sobrevivência

Por Redação / 21 de outubro de 2025

Reforma Tributária. Foto: Freepik

Foto: Freepik

Por Edna Dias e Pedro Monteiro *

Pela primeira vez, empresas do Simples Nacional terão que fazer uma conta estratégica — e não apenas contábil. Com a Reforma Tributária, a escolha entre permanecer “por dentro” do DAS ou migrar para o recolhimento “por fora” deixou de ser burocrática: agora, é questão de sobrevivência.

Como especialistas, acompanhamos de perto o impacto da Reforma Tributária, que unificou tributos sobre consumo em um modelo de IVA dual: CBS federal e IBS estadual/municipal. Embora o Simples continue existindo, ele não ficará totalmente isolado das mudanças. Para empresas que vendem a outras empresas (B2B), o método de recolhimento — “por dentro” ou “por fora” — determina competitividade, precificação e até a imagem de governança no mercado.

No regime “por dentro”, os tributos são embutidos no preço final e recolhidos no DAS, com menor alíquota e burocracia. Já no modelo “por fora”, os impostos são destacados na nota fiscal, o que encarece o produto, mas permite que os clientes empresariais aproveitem o crédito integral de IBS e CBS. Essa diferença simples muda tudo: margens, contratos e posicionamento competitivo.

Como essa decisão afeta diferentes negócios

Para ilustrar, três situações típicas de pequenas empresas mostram como a escolha impacta competitividade e resultados:

  1. Padaria de bairro (B2C)Negócios voltados ao consumidor final tendem a permanecer bem dentro do Simples. Clientes finais não aproveitam crédito fiscal, então a simplicidade do DAS unificado mantém fluxo de caixa e margens sem comprometer competitividade.

  2. Pequena indústria fornecedora de grandes empresas (B2B)Uma fábrica de peças que vende para montadoras enfrenta perda de competitividade se permanecer “por dentro”, já que não gera crédito suficiente para os clientes. Ao optar pelo regime “por fora”, destaca tributos, melhora margens e recupera espaço perdido. Essa escolha permite manter contratos estratégicos sem reduzir preços ou absorver prejuízos na margem.

  3. Empresa de tecnologia prestando serviços a corporações (B2B)Startups ou agências digitais enfrentam impacto direto: muitos contratos dependem da capacidade de gerar crédito de IBS/CBS para o contratante. Permanecer “por dentro” pode inviabilizar parcerias estratégicas; sair “por fora” aumenta o preço na nota, mas garante competitividade e manutenção de contratos essenciais. Cada decisão deve ser simulada considerando fluxo de caixa, preço final e relacionamento com clientes.

Impactos estratégicos

O regime tributário não afeta apenas impostos, ele redefine três pilares do negócio:

  • Precificação: “Por dentro”, menor custo tributário, mas clientes B2B podem exigir descontos para compensar crédito fiscal menor. “Por fora”, preço mais alto, mas crédito integral para clientes, equilibrando competitividade.

  • Competitividade: Empresas que não oferecem crédito integral podem perder contratos para concorrentes que destacam tributos.

  • Reputação junto a investidores e bancos: Destacar impostos e manter compliance demonstra organização, governança e previsibilidade, aumentando a confiança do mercado.

Erros que podem sair caro

No acompanhamento do mercado, alguns erros se repetem:

  • Procrastinar planejamento: Pequenas empresas que adiariam a decisão podem ser pegas de surpresa, perdendo tempo para ajustes de preço, contratos e sistemas.

  • Focar apenas na burocracia: Limitar a análise à emissão de notas e formulários ignora a estratégia de negócios e a competitividade.

  • Não comunicar clientes e fornecedores: A falta de diálogo pode gerar rupturas contratuais e perda de clientes estratégicos.

  • Negligenciar fluxo de caixa: Erros no destaque de IBS/CBS podem resultar em dinheiro parado no fisco, prejudicando a operação.

Planejar agora é o que diferencia quem vai se adaptar daquelas que descobrirão tarde demais o custo de não agir.

A Reforma Tributária cria oportunidades e riscos: promete transparência, mas exige decisões estratégicas inéditas. Cada empresa deve avaliar a cadeia de valor, conversar com clientes, calcular cenários e antecipar impactos sobre preço, competitividade e compliance. O planejamento tributário deixou de ser apenas uma obrigação contábil. Ele é agora fator de sobrevivência e competitividade.

Pequenos erros custam caro — e a antecipação é a melhor estratégia para manter o negócio competitivo.


* Edna Dias é advogada tributarista com mais de 22 anos de experiência na área, com foco em consultoria preventiva, treinamentos e palestras. Formada também em Ciências Contábeis, possui especializações em Direito Tributário, Finanças e Controladoria.

* Pedro Monteiro é advogado tributarista e atua no contencioso tributário estratégico e administração de débitos tributários.

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