Por Vanessa Sapiencia*
Nos últimos meses, temos observado duas tendências correlatas que merecem atenção estratégica: a difusão do “carewashing” — programas de “bem-estar” pontuais, que podem ser interpretados como comunicação meramente formal— e o crescimento da pelotização, adotada como alternativa para conferir agilidade e flexibilidade na gestão das relações de trabalho.
Essas tendências exigem atenção, pois programas de bem-estar que se limitam a ações de caráter simbólico podem gerar frustração, desgastar a imagem corporativa das empresas e comprometer a confiança interna.
Da mesma forma, a pejotização, quando conduzida sem planejamento e atenção às obrigações legais, pode ser percebida como precarização das relações de trabalho, afetando a governança, a cultura organizacional e a percepção de equidade corporativa.
Os desafios da pejotização são particularmente sensíveis no que se refere à gestão de saúde, bem-estar e compliance. É fundamental garantir coerência e equidade corporativa para os profissionais contratados como PJ e outros regimes de trabalho, uma vez que não estão totalmente abrangidos pelas políticas tradicionais de RH.
Ao mesmo tempo, os programas de bem-estar precisam ser efetivos e inclusivos, sem esbarrar no fenômeno do “carewashing” ou comprometer a autonomia desses profissionais.
Nesse contexto, fortalecer a cultura de cuidado e engajamento exige iniciativas estruturadas, tais como: programas de comunicação claros, treinamentos sobre ética e conduta, e iniciativas de saúde e segurança compatíveis com a natureza do vínculo, garantindo que todos os colaboradores, independentemente da forma de contratação, percebam coerência entre discurso e prática.
Essa estratégia permite promover bem-estar, ética e engajamento de forma consistente, integrando a força de trabalho de maneira equilibrada e estratégica.
Diante desse cenário, há um movimento mais amplo no mundo corporativo, em que empresas buscam alinhar práticas internas às expectativas de colaboradores e stakeholders, especialmente no campo da saúde, segurança e bem-estar no trabalho.
A partir desse ponto, podemos estabelecer um vínculo com os conceitos de “carewashing”, referente à comunicação de iniciativas de cuidado e responsabilidade social que, se não efetivas, podem comprometer a credibilidade da empresa e o engajamento interno, e de “walk the talk”, que complementa essa reflexão, pois significa agir de acordo com o que se fala.
Para as organizações, isso implica transformar políticas e compromissos declarados em práticas concretas, observáveis e mensuráveis, garantindo que discurso e ação caminhem juntos. Em compliance trabalhista, é a diferença entre declarar preocupação com saúde mental ou efetivamente implementar programas que protejam e apoiem os colaboradores.
A entrada em vigor da nova NR-1, prevista para 26 de maio de 2026, reforça a necessidade de ações concretas. A norma exige mapeamento de riscos psicossociais, incluindo jornadas excessivas, pressão psicológica e assédio moral, integrando saúde mental e física à gestão de riscos.
Em meio a todas as gerações, a atenção à Geração Z evidencia a importância de coerência, pois essa força de trabalho valoriza empresas que transformam discurso em prática. A ausência de consistência pode gerar “carewashing”, quando iniciativas de bem-estar permanecem apenas retóricas.
Na realidade significa desenvolver políticas integradas de compliance e comunicação que garantam coerência entre discurso e prática, implementar monitoramento contínuo das políticas trabalhistas e de saúde alinhadas à NR-1, e promover treinamentos e engajamento que reforcem a cultura ética e preventiva.
Implementar políticas consistentes de saúde, bem-estar e compliance, considerando tanto os colaboradores celetistas quanto os demais regimes de trabalho, é muito mais que uma obrigação legal, é uma oportunidade de demonstrar coerência, fortalecer a cultura organizacional e engajar talentos.
Empresas que aplicam o “walk the talk”, alinhando comunicação, ações e governança, não apenas reduzem riscos jurídicos, mas também constroem ambientes de trabalho mais confiáveis e atraentes, consolidando sua reputação corporativa e transformando exigências regulatórias em vantagem estratégica sustentável.
Em última análise, a pejotização deixa de ser apenas uma forma de contratação e se torna um desafio estratégico: alinhar flexibilidade, saúde, bem-estar e compliance. Empresas que conseguem transformar discurso em prática para todos os tipos de vínculo não apenas respeitam direitos e normas, mas também consolidam confiança, engajamento e reputação.
* Vanessa Maria Sapiencia, advogada trabalhista e diretora de compliance e novos negócios do Pellegrina e Monteiro Advogados. Especialista em Direito Empresarial do Trabalho, Canadian Business Law e International Business Management