Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
A 3ª edição da pesquisa ‘Golpes com Pix’, conduzida pela Silverguard, empresa de inteligência especializada em prevenção a fraudes financeiras, revela crescimento nas perdas causadas por crimes digitais no Brasil. O prejuízo médio por vítima subiu 21% em relação a 2024, alcançando R$ 2.540, segundo dados obtidos junto ao Banco Central via Lei de Acesso à Informação e a partir da análise de 12.197 denúncias registradas na Central SOS Golpe.
Os números ajudam a dimensionar a gravidade do cenário envolvendo o Pix, meio de transação bancária que se popularizou no Brasil. Somente em golpes de engenharia social — em que o criminoso engana a vítima para que ela mesma realize o pagamento —, as perdas chegaram a R$ 51 bilhões nos últimos 12 meses. Quando se somam fraudes com cartão de crédito (R$ 23 bilhões) e golpes envolvendo contas correntes e poupanças (R$ 38 bilhões), o rombo ultrapassa R$ 100 bilhões, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O impacto, porém, não é igual entre as vítimas. Pessoas com 60 anos ou mais perdem, em média, cinco vezes mais do que jovens de 18 a 29 anos. Já as empresas registram prejuízos médios de R$ 5.200, o dobro do valor registrado por pessoas físicas.
Contas empresariais
A pesquisa identificou uma mudança importante nas estratégias dos criminosos. Se antes o dinheiro das fraudes era transferido principalmente para contas de pessoas físicas, agora 65% dos golpes — o equivalente a dois em cada três — têm como beneficiárias contas empresariais, sobretudo LTDA (91%), seguidas por MEI e S.A..
Em 2024, apenas 42% dos golpes tinham como destino contas de Pessoa Jurídica. Segundo os pesquisadores, o uso de empresas para receber os valores roubados dificulta bloqueios, dá aparência de legitimidade e se confunde com disputas comerciais reais, o que atrapalha as investigações.
“Os golpes digitais deixaram de ser práticas amadoras. O que vemos hoje é uma indústria criminosa altamente estruturada, que movimenta bilhões, aluga contas PJ, compra anúncios em redes sociais e funciona como uma empresa paralela ao mercado formal. Estamos diante de um crime organizado digital que cresce em escala e sofisticação”, afirma Marcia Netto, CEO da Silverguard e coordenadora da pesquisa.
Principais vetores dos golpes
A pesquisa mostra que quase dois terços das fraudes têm origem em plataformas da Meta. O WhatsApp responde por 29,6% dos casos, seguido pelo Instagram (21,4%) e o Facebook (13,1%). O Telegram, em ascensão, já concentra 11,8% das ocorrências, um aumento de 61% em relação a 2024.
Os aplicativos de jogos também chamaram atenção, com alta de 355% em apenas um ano. Apesar de representarem apenas 1,8% dos casos, as ligações telefônicas causam o maior prejuízo médio: R$ 6.200 por vítima, sendo um terço delas do tipo spoofing — quando o golpista utiliza um número conhecido para enganar a vítima.
Destaques da análise
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WhatsApp: principal vetor entre vítimas com mais de 60 anos (46%).
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Instagram: lidera entre menores de 18 anos (40%).
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TikTok: já concentra 11% dos golpes envolvendo menores de idade.
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Ligações telefônicas: representam 1,8% dos casos, mas causam R$ 6.200 de prejuízo médio.
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Top 3 Big Techs: Meta (64%), Telegram (11,8%) e Google (7,2%).
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Distribuição por canal:
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Aplicativos de mensagens (WhatsApp, Telegram): 41,6%
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Redes sociais (Instagram, Facebook, TikTok etc.): 36,4%
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Buscadores (Google, YouTube): 7%
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Ligações telefônicas: 1,8%
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E-mail: 1,8%
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Aplicativos de jogos: 3,6%
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SMS: 0,7%
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Classes sociais afetadas
Os dados mostram que todas as classes sociais estão vulneráveis aos golpes — especialmente às compras falsas, uma das modalidades mais comuns. A perda média de R$ 2.540 representa alta de 21% frente a 2024, mas o impacto varia conforme o perfil socioeconômico.
Entre as classes D/E, a média é de R$ 1.500, enquanto nas classes A/B o prejuízo chega a R$ 10.500, um aumento de 67% em relação ao ano anterior.
Evolução tecnológica
Para Ricardo Costa, Head de Inovação e Fábrica de Software da Globalweb, o combate aos golpes com Pix precisa ir além da conscientização do usuário: depende, sobretudo, da evolução tecnológica das instituições financeiras e das empresas que atuam em segurança digital.
“Hoje, as soluções baseadas em inteligência artificial, autenticação multifator e análise preditiva de transações são capazes de identificar padrões suspeitos, bloquear operações em tempo real e até antecipar tentativas de fraude antes que atinjam o usuário”, observa Costa.
“A integração entre plataformas bancárias, provedores de tecnologia e órgãos reguladores é essencial para fortalecer a defesa contra esse tipo de crime. Quanto mais conectadas estiverem as camadas de proteção, menor será o espaço de atuação dos golpistas”, complementa.
Como se proteger
A advogada Fernanda Zucare, especialista em Direito do Consumidor e sócia do Zucare Advogados Associados, destaca medidas essenciais para se prevenir contra o golpe:
1. Desconfie de ofertas boas demais. Promoções com preços muito abaixo do mercado, sorteios e promessas de dinheiro rápido são os principais atrativos usados pelos golpistas. Sempre confirme se o site ou perfil é verdadeiro: verifique o CNPJ, reputação no Reclame Aqui, e domínio oficial (.com.br).
2. Nunca compartilhe códigos de segurança. Nenhum banco ou empresa legítima solicita código de autenticação, token ou QR Code por telefone, WhatsApp ou e-mail. Se alguém pedir, é golpe. Desligue imediatamente.
3. Use apenas canais oficiais. Faça transferências e pagamentos somente pelo app do seu banco. Evite clicar em links recebidos por mensagens, redes sociais ou anúncios patrocinados.
4. Confirme sempre o destinatário antes de enviar o valor via Pix. Confira o nome completo e CPF/CNPJ antes de concluir a transação. Em caso de dúvida, pare e confirme diretamente com a pessoa ou empresa.
5. Oriente familiares e idosos. Pessoas com mais de 60 anos são mais visadas por golpes de “ajuda urgente” ou “benefício atrasado”. Converse com pais e avós sobre nunca transferirem valores sem confirmar pessoalmente.
6. Desconfie de promessas de investimento. Golpes com falsas promessas de “multiplicar dinheiro” cresceram em todas as faixas etárias e classes sociais. Se prometerem retorno rápido e garantido, é fraude.
7. Atenção a mensagens de “alerta do banco”. Criminosos usam mensagens de “bloqueio de conta” ou “atividade suspeita” para enganar. Não clique em links; entre no app oficial ou ligue para o número do banco que consta no verso do cartão.
8. Sofreu golpe? Aja rápido. Comunique o banco imediatamente e registre um Boletim de Ocorrência eletrônico. O Pix possui o Mecanismo Especial de Devolução (MED), que pode permitir o bloqueio e recuperação do valor, dependendo das circunstâncias.