Crise já estava no radar (foto: Ambipar)
O mercado financeiro acordou nesta terça-feira (21) com uma bomba que deve causar impactos grandes e duradouros entre investidores brasileiros. A Ambipar, empresa que surgiu com grandes promessas e apostando na economia verde, anunciou, no fim da noite de segunda-feira, que entrou com o pedido de recuperação judicial (RJ) simultaneamente na 3ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro e, pelo Chapter 11, na Justiça dos Estados Unidos, por meio da Ambipar Emergency Response (atua em crises ambientais), com sede nas Ilhas Cayman.
Caso o pedido de RJ seja aceito, a companhia consegue evitar a cobrança de dívidas e ganha tempo para organizar um plano de pagamento.
“O Pedido de Recuperação Judicial foi ajuizado em razão da sequência de eventos deflagrada após a descoberta de indícios de irregularidades na contratação de operações de swap pela Diretoria Financeira e a renúncia abrupta do antigo Diretor Financeiro, que resultou em forte abalo na confiança do mercado em relação ao Grupo Ambipar e culminou em pedidos de antecipação de vencimento de dívidas por parte de alguns credores, criando risco concreto de vencimento cruzado de outras obrigações do Grupo”, afirmou a empresa em comunicado ao mercado.
O texto seguiu decisão em caráter de urgência do conselho de administração da empresa, em meio a uma crise de caixa e o risco de pagamento acelerado de dívidas de bilhões de reais. Apesar do impacto, o desfecho já era esperado pelo mercado e considerado inevitável. Negociadas a R$ 10 no fim do mês passado, as ações da Ambipar fecharam o pregão de segunda-feira a R$ 0,58, depois de os papéis terem sido excluídos de todos os índices da B3 de que faziam parte.
A companhia afirma que suas operações seguem normalmente, mas, no fim de setembro, já havia conseguido uma medida cautelar na Justiça suspendendo execuções e cobranças por 30 dias, prorrogáveis por mais 30, refere o site Money Times nesta terça.
Segundo a Ambipar, a “tutela cautelar e posterior pedido de recuperação judicial foram apresentados para garantir a preservação das atividades empresariais do Grupo Ambipar, permitindo a continuidade de suas operações e a manutenção dos empregos, contratos e serviços prestados”.
Crise anunciada
Os problemas com a Ambipar já eram percebidos há meses — principalmente nos modelos da Moody’s Analytics. Segundo a empresa de análise de risco, os sinais de deterioração começaram a aparecer ainda no fim de 2024, muito antes da turbulência chegar às manchetes.
Tadeu Marcon Teles, diretor da Moody’s Analytics, alertava que o modelo da companhia já indicava “mudanças notáveis no perfil de risco” da Ambipar desde dezembro do ano passado.
Entre 19 de dezembro de 2024 e 8 de setembro de 2025, o nível de risco da empresa aumentou mais de oito vezes, um salto que chamou a atenção dos analistas.
“Os alertas começaram a aparecer em janeiro de 2025, quando o risco já havia triplicado em relação ao mês anterior”, disse Teles, em nota à imprensa. “O crescimento foi gradual, mas constante”.
Informações contraditórias
Mas foi só em 22 de setembro, pouco antes de a empresa ter anunciado a sua sétima emissão de debêntures, de R$ 3 bilhões, que os bonds da Ambipar com vencimento em 2031 desabaram no mercado internacional.
O Deutsche Bank, um dos credores da empresa, exigiu um aditivo de US$ 35 milhões, provocando um efeito em cadeia que poderia acelerar obrigações financeiras em até R$ 10 bilhões. Segundo a revista Veja, o contrato com o banco alemão previa a cobrança do aditivo em caso de desvalorização dos bonds no mercado internacional.
A Ambipar recorreu à proteção judicial em setembro, alegando que o banco exigia garantias muito além dos termos contratuais, o que gerou dúvidas no mercado com medidas contraditórias. Ao mesmo tempo que reportava uma dívida de R$ 616 milhões, segundo a agência S&P Global, a companhia registrava posição de caixa de R$ 4,7 bilhões no fim do segundo trimestre, o que deveria ser mais que suficiente para cobrir as dívidas.