Leonardo Leão: imigração para EUA é maratona, não 100 metros rasos (Foto: Divulgação)
Por Leonardo Leão*
No universo da imigração americana, a informação circula rápido e o pânico circula ainda mais velozmente. Um recente memorando anunciado pelo Departamento de Estado dos EUA gerou uma onda de incerteza entre brasileiros que aguardam seus vistos de imigrante. O documento anunciava uma pausa temporária na emissão de vistos nos consulados, o que, para o olhar destreinado ou para quem alimenta a ansiedade em fóruns de internet, soou como o fechamento das portas da América. Como advogado atuante na área, afirmo categoricamente: não é o momento para alarme, mas para compreensão técnica dos fatos.
A narrativa de que os Estados Unidos deixaram de querer imigrantes qualificados não se sustenta diante da realidade consular que presenciamos diariamente. Para desmistificar esse cenário, trago um fato concreto, ocorrido dias após a divulgação do tal memorando. Um cliente nosso, médico brasileiro de alta qualificação (aplicante através da categoria EB-2 NIW), compareceu à sua entrevista agendada no Consulado Americano no Rio de Janeiro. O clima de tensão era esperado, dada a notícia do congelamento.
O resultado, no entanto, foi a prova cabal de que a máquina imigratória não parou. A entrevista ocorreu normalmente. A posição do oficial de imigração foi clara e técnica: “Na minha opinião, o seu visto está aprovado”. Contudo, devido à diretriz administrativa vigente – o tal memorando –, a estampagem física do visto no passaporte não poderia ocorrer naquele exato segundo. A solução? O caso foi colocado em “análise administrativa”.
Para o leigo, “análise administrativa” pode soar como um limbo burocrático. Para nós, especialistas, é um procedimento padrão em momentos de ajuste fiscal ou atualização sistêmica do Departamento de Estado. Significa que o mérito do candidato foi validado. O governo americano reconheceu que os Estados Unidos se beneficiarão da presença daquele médico em seu território. A emissão do documento físico é, agora, apenas uma questão de “quando”, e não de “se”. Assim que o sistema for liberado – o que historicamente ocorre em breves períodos após ajustes de cotas ou viradas de ano fiscal –, o visto será emitido. A “janela americana” continua aberta para profissionais qualificados; o que mudou foi apenas a velocidade do vento.
Devemos encarar essa pausa como o que ela realmente é: uma atualização de sistema, similar ao que já vivemos durante a pandemia ou em outras reestruturações consulares, e não como uma mudança na política de estado. Se você é um profissional com carreira sólida, sem antecedentes criminais, sem doenças graves de saúde pública e sem riscos de se tornar um encargo público, a sua trajetória imigratória permanece segura.
Estamos diante de uma atualização de critérios que visa dar mais transparência e rigor ao sistema. Para o imigrante sério e bem assessorado, isso é, no fundo, uma garantia de que as regras do jogo estão sendo profissionalizadas. Mantenham o foco no seu plano de imigração. A pausa é do sistema, não do seu sonho.
O processo de imigração legal é uma maratona, não um tiro de 100 metros. Quem baseia seu projeto de vida em boatos de curto prazo tende a paralisar. Já quem conta com assessoria jurídica experiente e entende a engrenagem americana sabe que, enquanto o sistema atualiza, nós continuamos trabalhando. O sonho americano não acabou; ele apenas exige, mais do que nunca, qualificação e estratégia.
*Especialista em Direito Imigratório, CEO da Leao Group e ‘Fundador da imigra’. É Presidente Nacional da ABA – Associação Brasileira de Advogados – e Presidente da Comissão Nacional de Direito Imigratório e Mobilidade Global da OAB do Rio de Janeiro.