Opinião

Assimetria estrutural: o peso invisível de ser advogado

Quem sente esse peso e segue em frente está fazendo algo que merece ser reconhecido

16 de março de 2026

Advogado Arthur Mendes Lobo (divulgação)

Por Arthur Mendes Lobo*

 

Todo processo tem um número. Uma sequência fria de dígitos que identifica uma disputa dentro de um sistema que processa milhares delas por dia. Mas, por trás desse número há sempre algo que o sistema não registra: o patrimônio que uma família levou décadas para construir, a empresa que sustenta empregos e projetos de vida, a reputação que um empresário cultivou ao longo de uma carreira inteira. O advogado sabe disso. E carrega isso, inclusive para dormir. A faculdade ensina a lei. A vida ensina o peso de aplicá-la.

Não há disciplina no currículo jurídico que prepare o estudante para a ligação às onze da noite na véspera de uma audiência decisiva, para a solidão de tomar uma posição técnica cujas consequências humanas são enormes, para o momento em que a estratégia precisa ser refeita do zero porque o processo tomou um rumo inesperado. Essas situações não estão em nenhum manual. Elas chegam, e o advogado responde a elas com o que tem: preparo, experiência e, em boa medida, caráter.

Mas há uma dimensão ainda menos discutida. O advogado não pode ter um dia ruim. Tem audiência. Não pode errar, porque do outro lado do erro há alguém que perde algo real. Essa margem inexistente para o deslize humano convive, paradoxalmente, com uma rotina em que se lida cotidianamente com falência, morte, ruína financeira e conflitos que destroem vínculos construídos ao longo de décadas. É uma combinação que poucos ofícios impõem com tamanha regularidade.

Há também o que ninguém vê de fora: o advogado frequentemente opera como psicólogo, conselheiro e figura de confiança, sem que isso esteja em nenhum contrato de honorários. O cliente em crise não leva ao escritório apenas uma causa jurídica. Leva o medo, a raiva, a vergonha e a esperança, muitas vezes misturados e indistinguíveis. Cabe ao advogado separar o que é matéria de direito do que é matéria de vida, e ainda assim responder com competência a ambos. E quando tudo termina, carrega consigo segredos que jamais poderá contar.

Honesta homenagem

Há uma assimetria estrutural na profissão que raramente é discutida com franqueza. O cliente vê o resultado. Raramente vê o processo. Não vê as horas de pesquisa jurisprudencial, a peça reescrita três vezes, a linha tênue entre o argumento que convence e o que fragiliza a tese. Vê o despacho favorável. Vê o acordo fechado em termos razoáveis. Na vitória, o advogado vibra junto com o cliente. Na derrota, carrega o peso sozinho. E ao final de tudo (depois da audiência, da notícia difícil, do dia que não podia dar errado e deu) ainda precisa ter energia para ser gente.

Patrimônio, reputação e continuidade de negócios não são abstrações jurídicas. São dimensões concretas da vida de pessoas reais que depositam no advogado não apenas uma procuração, mas frequentemente a narrativa inteira de um projeto de vida. Quem não sente o peso dessa responsabilidade talvez não esteja exercendo advocacia de verdade. E quem sente esse peso e segue em frente, todos os dias, está fazendo algo que merece ser reconhecido com mais precisão do que costuma ser.

A homenagem mais honesta que se pode fazer à advocacia não é a que exalta a toga ou celebra a retórica. É a que reconhece, sem romantismo excessivo, o que realmente acontece por trás de cada causa: o esforço silencioso de quem escolheu colocar a sua inteligência, o seu tempo e a sua consciência a serviço de um direito que, sem defesa técnica qualificada, não passa de texto impresso.

* Arthur Mendes Lobo é advogado, sócio-fundador do escritório Wambier, Yamasaki, Bevervanço & Lobo Advogados, doutor em Direito Processual Civil pela PUC-SP e pós-doutor em Direito Civil pela Universidad Carlos III de Madrid.

Notícias Relacionadas

Notas

Sócios da Advocacia José Del Chiaro são indicados a prêmio

Ademir Pereira Jr. e Luiz Felipe Rosa Ramos estão entre os escolhidos para premiação da “Concurrences”

Opinião

Regras sobre registro público de empresas são consolidadas

Regulamentação possibilita mais agilidade nas atividades empresariais