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Nos últimos dez anos, mais de 30 mil empresas ingressaram com pedidos de recuperação judicial no Brasil — um número que reflete um problema estrutural mais amplo do que a simples falta de crédito ou a desaceleração econômica.
Em 2025, o movimento ganhou força: os pedidos aumentaram 69% em relação ao ano anterior, consolidando o maior volume em cinco anos. O dado revela que a crise financeira das companhias brasileiras está diretamente ligada ao avanço dos passivos tributários e à dificuldade de manter o equilíbrio fiscal.
Atualmente, oito em cada dez empresas em recuperação judicial acumulam dívidas fiscais expressivas, que comprometem o caixa, limitam a operação e reduzem as chances de retomada. A recuperação, antes restrita à renegociação de dívidas privadas, passou a depender da reconstrução da relação com o fisco, colocando a gestão tributária no centro das estratégias de reestruturação empresarial.
Esse cenário vem impulsionando a busca por soluções integradas que permitam às empresas reorganizar seus passivos com previsibilidade e segurança jurídica. Hoje, a combinação entre transações tributárias, programas de parcelamento especiais, revisões de autuações e compensações estratégicas tornou-se a principal via para reduzir o peso das obrigações fiscais e viabilizar a continuidade dos negócios.
“As soluções estão disponíveis, mas exigem técnica e planejamento. O que falta, na maioria dos casos, é a integração entre o jurídico, o contábil e o financeiro. A empresa que reconhece o tamanho do passivo e negocia de forma estruturada consegue reverter o quadro e voltar a operar com sustentabilidade”, afirma Mary Elbe Queiroz, advogada tributarista e presidente do Cenapret e sócia do Queiroz Advogados — que vai abordar o tema em um painel que será apresentado no 7.º Congresso Internacional de Insolvência Empresarial, que acontece nos dias 13 e 14 de novembro, no Tivoli Ecoresort, em Praia do Forte (BA).
A especialista afirma que a legislação recente ampliou os instrumentos de negociação e que o fisco vem adotando uma postura mais colaborativa. “Hoje há mais abertura para dialogar com empresas em crise, especialmente quando há transparência e capacidade de pagamento comprovada”, destaca.
Para ela, a consolidação de boas práticas de compliance fiscal e o uso de ferramentas digitais de auditoria contínua são caminhos eficazes para reduzir riscos e manter o controle sobre débitos futuros.
Estratégia de recuperação
Mary Elbe reforça que a regularização tributária precisa ser entendida como parte central da estratégia de recuperação, e não como um capítulo à parte.
“A regularização tributária não é o fim do processo, é o início da reconstrução. É o que dá base para o fluxo de caixa, para o crédito e para a confiança no mercado. Sem isso, a empresa volta a quebrar poucos meses depois de aprovar o plano judicial”, afirma.
Entre as medidas mais eficazes, a advogada cita o uso combinado de transações individuais com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), o alongamento de prazos com juros reduzidos e a compensação cruzada de créditos tributários, estratégias que têm gerado ganhos reais de liquidez e alívio imediato no caixa.
O crescimento expressivo das recuperações judiciais mostra que o modelo de gestão empresarial brasileiro está em transformação: o foco deixou de ser apenas financeiro e passou a incluir o componente fiscal como pilar da sustentabilidade corporativa.
Empresas que estruturam seus planos de forma realista, incorporando a regularização tributária desde o início, aumentam significativamente suas chances de aprovação judicial e de retomada estável das operações.