Foto: Itaú alega quebra de confiança (Wikimedia)
O mercado bancário foi abalado nesta segunda-feira (08) pela notícia da demissão em massa de cerca de mil funcionários que trabalhavam em regime híbrido ou integralmente remoto no Itaú, o maior banco privado do país. As demissões teriam sido motivadas pelo acompanhamento remoto da atividade dos trabalhadores, e o caso deve acabar na Justiçado Trabalho. Entre os temas alegados pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região está a legalidade de demissões por justa causa a partir de métricas de telemetria.
Os funcionários demitidos trabalhavam nas unidades Centro Tecnológico, CEIC e Faria Lima do banco, e a avaliação do Itaú, ao longo de seis meses, teria indicado que as atividades desses funcionários em seus computadores eram incompatíveis com a marcação de ponto.
De acordo com informações da Folha de S.Paulo, o banco monitora as atividades dos funcionários nos computadores a partir de diversas variáveis, como memória em uso no computador, quantidade de cliques, abertura de abas, inclusão de tarefas no sistema e criação de chamados.
Apesar de não confirmar a metodologia adotada para o monitoramento do trabalho remoto, em nota, o Itaú disse ter realizado os desligamentos após uma revisão criteriosa de condutas relacionadas ao trabalho remoto e registro de jornada.
“Em alguns casos, foram identificados padrões incompatíveis com nossos princípios de confiança, que são inegociáveis para o banco”, afirmou a nota do banco, acrescentando que “as decisões fazem parte de um processo de gestão responsável e têm como objetivo preservar nossa cultura e a relação de confiança que construímos com clientes, colaboradores e a sociedade.”
Sindicato protesta
O Sindicato considerou o critério usado pelo banco nas demissões como “extremamente questionável”, pois “não leva em conta a complexidade do trabalho bancário remoto, possíveis falhas técnicas, contextos de saúde, sobrecarga, ou mesmo a própria organização do trabalho pelas equipes”.
Segundo Maikon Azzi, diretor do sindicato e bancário do Itaú, o banco justificou os desligamentos com base em “registros de inatividade nas máquinas corporativas, em alguns casos, períodos de quatro horas ou mais de suposta ociosidade”. Ele acrescentou que o Itaú promoveu a demissão em massa “sem advertência, feedback ou qualquer outra sinalização para a correção de condutas” dos funcionários.
Azzi criticou também a forma como as demissões foram feitas e a falta de oportunidade para que os empregados demitidos pudessem se defender. “Não houve qualquer diálogo prévio com os trabalhadores nem com as entidades sindicais. Foram dispensas em massa, realizadas de forma unilateral, sem transparência e sem respeito aos princípios de negociação e mediação.”
A presidente do sindicato, Neiva Ribeiro, pontuou que o Itaú teve, no primeiro semestre do ano, “lucro superior a R$ 22,6 bilhões, com rentabilidade em alta”, e afirmou ser “inaceitável que uma instituição que registra lucros bilionários promova demissões em massa sob a justificativa de ‘produtividade'”.
“Os avanços tecnológicos e os ganhos de produtividade decorrentes da digitalização poderiam ser revertidos em melhores condições de trabalho e emprego estável. Contudo, enquanto os trabalhadores são sacrificados, os acionistas seguem acumulando ganhos recordes”, afirmou.
Segundo o sindicato, o Itaú já havia cortado 518 postos de trabalho nos últimos 12 meses, reduzindo o quadro de pessoal da holding para 85.775 empregados.
Home office perde espaço
Depois da expansão rápida provocada pela pandemia de covid-19, o home office vem perdendo espaço no meio corporativo, em todo o mundo. Muitas empresas têm aumentado a pressão para que os funcionários retornem ao trabalho presencial e adotado novas formas de monitoramento do trabalho remoto.
A Amazon, por exemplo, desde janeiro exige que seus funcionários estejam nos escritórios cinco dias por semana, exceto em casos excepcionais, como familiar doente ou emergência doméstica. A Dell, fabricante de computadores e periféricos, anunciou que empregados em trabalho remoto não seriam considerados para promoções internas.
Gestores de algumas companhias alegam não ter segurança sobre a produtividade de seus funcionários em home office, e apontam impactos negativos para a integração de novos colaboradores, a troca e o desenvolvimento de ideias e o exercício da liderança e da cultura organizacional.
Por outro lado, trabalhadores que apoiam o home office ou regime híbrido costumam relatar economia de tempo e recursos, mais flexibilidade na organização da vida familiar e melhora na qualidade de vida.