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Brasil registra recorde de feminicídios em 2025, com 4 mulheres mortas por dia

Especialistas expõem falhas estruturais do Estado e ciclos prolongados de violência doméstica

Por Redação / 21 de janeiro de 2026

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2025 foi o ano com o maior número de feminicídios (Foto: Freepik)

O Brasil encerrou 2025 com o maior número de feminicídios desde a tipificação do crime, em 2015, apesar da queda geral nas mortes violentas no país. Dados divulgados nesta terça-feira (20) pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública mostram que foram registrados 34.086 homicídios no ano passado, uma redução de 11% em relação a 2024, quando houve 38.374 casos, marcando o quinto ano consecutivo de queda nesse tipo de crime.

Segundo a pasta, a diminuição das mortes violentas está associada à adoção de políticas públicas de segurança e à redução de conflitos entre facções do crime organizado nos últimos anos. Em contrapartida, o número de feminicídios seguiu trajetória oposta e atingiu um recorde histórico.

De acordo com o Ministério da Justiça, foram contabilizados 1.470 casos de feminicídio em 2025, o que representa uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. O levantamento ainda não inclui os dados referentes ao mês de dezembro nos estados de São Paulo e Paraíba. O crime ocorre majoritariamente no contexto de violência doméstica e tem, em grande parte dos casos, parceiros ou ex-parceiros como autores.

Segundo Danda Coelho, bacharel em Direito, professora, doutora, jornalista e palestrante, os dados precisam ser analisados para além das estatísticas oficiais. “O feminicídio não começa no dia do assassinato. Ele é construído aos poucos, em relações que vão minando a autonomia, o senso de valor e a liberdade da mulher. Quando a violência explode, ela já vinha sendo anunciada há muito tempo”, afirma Danda, idealizadora do projeto Mulheres Cuidando de Mulheres, espaço criado para que mulheres possam dividir suas dores.

Segundo ela, muitas dessas relações funcionam como bombas-relógio. “São vínculos aparentemente estáveis, mas sustentados por ciúme excessivo, posse, isolamento e desqualificação. A mulher aprende a conviver com o medo, a dúvida e a culpa, enquanto o risco só aumenta”, diz.

Os dados do Ministério da Justiça dialogam com pesquisas nacionais que evidenciam a dimensão da violência doméstica no país, incluindo agressões psicológicas, morais, patrimoniais e físicas. “A violência mais perigosa é aquela que não deixa marcas visíveis”, observa a pesquisadora. “Ela confunde, paralisa e faz a mulher acreditar que exagera, que provoca ou que merece o que vive. Esse sequestro da percepção é o que mantém muitas presas a relações que colocam suas vidas em risco.”

Falhas estruturais

A gravidade do cenário também é destacada por André Santos Pereira, especialista em Segurança Pública e presidente da Associação dos Delegados do Estado de São Paulo (ADPESP). Ele chama atenção para falhas estruturais no enfrentamento ao crime.

“Como delegado e especialista em segurança pública, inclusive tendo atuado nas delegacias de defesa da mulher em São Paulo, é impossível ignorar a gravidade da situação apresentada. O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios já contabilizados, com uma média alarmante de quatro mulheres assassinadas por dia”, diz ele.

“Essa tragédia pode ser atribuída a uma combinação de fatores que envolve, entre outros, a morosidade do Poder Judiciário e do Ministério Público, o sucateamento das forças de segurança e a incapacidade do Estado de prover os recursos materiais e humanos necessários para as polícias”, completa.

Em 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei que aumentou as penas para o crime de feminicídio, que passaram a variar entre 20 e 40 anos de prisão. Para especialistas, no entanto, o endurecimento da legislação precisa ser acompanhado de políticas públicas eficazes de prevenção, proteção e acolhimento às vítimas.

Nesse contexto, Danda defende que tratar o feminicídio como um problema estrutural é essencial para reverter o cenário. “Enquanto a sociedade tratar essas mortes como tragédias individuais, nada muda. Feminicídio é um problema estrutural, que exige informação, responsabilização e uma mudança profunda na forma como encaramos relações abusivas”, conclui.

Em casos de violência, mulheres podem buscar ajuda pelo Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher), pelo 190 em situações de emergência, pelas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e pela rede de proteção social e de saúde.

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