Envelhecimento em alta no país (Foto: Freepik)
O Brasil passa por uma transformação demográfica sem precedentes, marcada pela rápida queda da taxa de natalidade e pelo envelhecimento da população. Segundo o Censo Demográfico 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o fenômeno já projeta um cenário de alto risco para a economia e para a sustentabilidade da Previdência Social nas próximas décadas.
O tema da redação da prova Enem 2025, “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, que foi aplicada no domingo (9), aliás, reflete uma realidade cada vez mais evidente nos números do Censo Demográfico de 2022: o Brasil está envelhecendo em ritmo acelerado, conforme relatou texto publicado nesta segunda (10), no Debate Jurídico.
A taxa de fecundidade caiu para 1,55 filho por mulher, número abaixo do nível de reposição populacional — de 2,1 filhos por mulher —, necessário para manter o tamanho da população estável ao longo das gerações.
Os dados do Censo mostram que a baixa natalidade já está alterando a estrutura familiar no país:
Em 2022, pela primeira vez, casais com filhos representaram menos da metade das famílias brasileiras, caindo de 56,4% em 2000 para 42,0%.
No mesmo período, o número de casais sem filhos foi o que mais cresceu, subindo de 13,0% em 2000 para 24,1% em 2022.
O percentual de mulheres entre 50 e 59 anos que nunca tiveram filhos aumentou de 10,0% para 16,1%.
Essas transformações, segundo especialistas, podem afetar diretamente a base produtiva do país e gerar desequilíbrios na pirâmide etária.
Crise demográfica e econômica
A doutora em Direito Civil e pesquisadora Fernanda Las Casas aponta que o Brasil está prestes a enfrentar uma crise populacional de grandes proporções. Em seu livro “Família: mitos da ancestralidade e crise da maternidade”, fruto de sua tese de mestrado pela USP, ela projeta uma crise econômica por falta de mão de obra até 2041 e um colapso na Previdência Social em 2050.
“Um dos achados mais urgentes da obra é a projeção de que o Brasil pode entrar em uma crise demográfica e econômica até 2041, com o número de mortes superando o de nascimentos, além de um colapso na Previdência em 2050”, alerta Fernanda.
Impacto na Previdência
Enquanto nascem menos crianças, o número de idosos cresce rapidamente.
O total de pessoas com 65 anos ou mais chegou a 22,1 milhões em 2022, o que representa 10,9% da população brasileira.
Esse grupo aumentou 57,4% desde 2010, quando somava 14 milhões de pessoas (7,4% da população).
O índice de envelhecimento chegou a 80, ou seja, há 80 idosos para cada 100 crianças de até 14 anos.
A pesquisadora ressalta que essa inversão da pirâmide etária traz riscos concretos para a economia. “A preocupação central é a falta de trabalhadores para sustentar o sistema e a atividade econômica”, afirma.
Maternidade, desigualdade e mercado de trabalho
Entre as razões para a queda na natalidade, Fernanda Las Casas destaca a desigualdade de gênero na divisão das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos. Para muitas mulheres, o custo profissional da maternidade é alto e duradouro.
“Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) demonstra que 49% das mulheres, após terem o primeiro filho, são demitidas. As mulheres não querem mais maternar, porque sabem que isso vai impactar diretamente na carreira, na empregabilidade e no valor do salário”, ressalta a advogada.
Ela aponta que políticas públicas isoladas, como a ampliação da licença-paternidade para 20 dias, não resolvem o problema. “O ideal seria adotar a licença parental, permitindo que ambos usufruam de um período maior para o cuidado com o bebê, como acontece na Suécia, Espanha e Alemanha”, explica.
Novas gerações
Apesar dos alertas, Fernanda Las Casas acredita que a crise é reversível, desde que haja mudanças profundas na estrutura social e nas políticas públicas.
“Sua resolução demanda o engajamento da população masculina e exige a transformação da dinâmica comportamental da sociedade patriarcal. Não se trata apenas de ajustar o sistema para redistribuir capital, mas de demolir mitos enraizados no passado”, afirma.
Segundo a pesquisadora, o ponto de partida está na educação das novas gerações. “É fundamental começar o processo de mudança trabalhando com os jovens, promovendo um modelo de cuidado compartilhado e equilibrado”, conclui.