Opinião

Um hífen que separa a normalidade da crise: a lição do “boné” para o mundo corporativo

Empresas precisam contar com um Comitê Multidisciplinar de Gestão de Crise

15 de setembro de 2025

Por Natália Biondi Gaggini Robles*
O recente episódio no US Open, em que o milionário polonês Piotr Szczerek, CEO da Drogbruk, empresa polonesa do setor de pavimentação, foi flagrado tomando o boné de uma criança, fez muito mais do que gerar indignação nas redes sociais. Ele escancarou, de forma crua, a força desmedida e os perigos reais do chamado “tribunal da internet”. Em questão de horas, a onda de fúria virtual não se limitou ao indivíduo envolvido: transbordou e atingiu em cheio uma empresa homônima, a Drog-Bruk, que nada tinha a ver com a história.

O detalhe, crucial neste caso, é que um simples hífen no nome corporativo foi completamente ignorado pela massa digital. A empresa ligada a Szczerek, registrada como “Drogbruk”, viu sua homônima com hífen, a “Drog-Bruk”, ser alvo de ataques. Essa mínima nuance gráfica, no entanto, foi insuficiente para conter a avalanche. Reputação, credibilidade e negócios de uma marca consolidada passaram a ser questionados publicamente sem qualquer fundamento, demonstrando como a lógica das redes sociais frequentemente prescinde de fatos e contextualização.

Esse caso é um alerta severo para empresas, executivos e influenciadores. Na era digital, um mero sinal gráfico pode ser suficiente para confundir narrativas, detonar crises e gerar prejuízos tangíveis e intangíveis devastadores. A lição que fica é clara e urgente: a gestão de riscos reputacionais deixou de ser um tema secundário e passou a ser uma questão de sobrevivência corporativa. É imprescindível contar com um Comitê Multidisciplinar de Gestão de Crise, capaz não apenas de monitorar ameaças em tempo real, mas de agir com velocidade e precisão para preservar a imagem e a segurança jurídica da organização.

No ambiente hiperconectado em que vivemos, onde a viralização é instantânea e a investigação minuciosa é rara, a linha que separa a normalidade do caos é tênue. Pode ser um hífen, um nome similar ou um vídeo editado ou até criado por inteligência artificial. Por isso, investir em protocolos robustos de gestão de reputação digital já não é um diferencial competitivo; é parte essencial e não negociável de uma governança corporativa moderna e responsável. Ignorar essa realidade é se colocar à mercê do próximo veredito imprevisível do tribunal da internet.

Natália Biondi Gaggini Robles faz parte do Comitê de Direito Digital do Peixoto & Cury Advogados e é professora de Direito do Trabalho.

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