Opinião

Não fui ao funeral do Djoko

Dá arrepio quando um atleta fenomenal se recusa a se vacinar contra a Covid-19

22 de fevereiro de 2022

Foto: Bruno Van Enck

Por Nelson Wilians*

Artigo publicado originalmente na Folha

“O mundo caminha de mal a pior.” Depois do último artigo (Não Saímos do Sanguinolento Coliseu), apresentado neste espaço, sinto a necessidade de defender minha crença no presente e no futuro da humanidade.

Lembro-me da minha infância e adolescência ouvindo minha mãe e meu pai, ambos religiosos fervorosos, falando que “o mundo caminha de mal a pior” e que “os dias são maus”.

Acreditei nisso até que um dia os confrontei com base na própria Bíblia, afinal, essa era a base da afirmativa deles.

A história de Caim e Abel é narrada no livro do Gênesis. Este teria sido o primeiro homicídio da história. Até então, pelas Sagradas Escrituras, temos Adão, Eva, Caim e Abel, ou seja, quatro pessoas no mundo e uma delas (Caim) matou o irmão (Abel).

Assim, pelas estatísticas, temos 25% de homicídio na humanidade. Estamos longe disso atualmente, embora vejamos ocorrências sanguinolentas de tempos em tempos.

Hoje temos uma “civilidade” nunca vista na história, porém, a violência racial continua descaradamente a se propagar, exigindo a confecção de uma enxurrada de leis, como a que definiu há 30 anos o racismo como crime inafiançável e imprescritível, e a decisão do STF, em julho de 2019, de transformar a LGBTFOBIA em crime de racismo.

Em tese, por que seriam necessárias leis para proteger seres humanos de outros seres humanos?

Porque não podemos subestimar o “número de indivíduos estúpidos em circulação”. E, como cravou Gustave Flaubert, “a Terra tem seus limites, mas a estupidez humana é ilimitada”.

Veja a relutância de muitos em não se vacinar. Atrevo-me a dizer que o desenvolvimento da vacina contra a Covid-19 é mais importante do que o homem ter pisado na Lua, porque devolveu a esperança de sobrevivência à nossa civilização.

Porém, enquanto grande parte do mundo, num esforço coletivo, desenvolveu um instrumento para combater a doença que tirou a vida de milhões de pessoas em apenas um estalo, há aqueles que colocam uma variedade de falsas razões para não se vacinar, que vão muito além do fato de ser desenvolvida rapidamente ou da bobageira de virar jacaré.

Não. É algo bem mais mirabolante, como dizer que a vacina altera o DNA, afeta a fertilidade ou inclui um dispositivo de rastreamento.

Fui criado na linha “do que não mata, engorda”, ou como diria Friedrich Nietzsche: “Aquilo que não me mata só me fortalece” (Crepúsculo dos Ídolos).

Por isso, dá arrepio quando um atleta fenomenal como o tenista Novak Djokovic se recusa a se vacinar. Talvez ele tenha se dedicado muito em apenas desenvolver os braços, as pernas e a coordenação motora. Questionado sobre o motivo de não ter se vacinado, Djoko justificou que temia mudanças em seu organismo. Ele tem o direito de não se vacinar, como qualquer outra pessoa. Mas o direito coletivo se sobrepõe ao direito individual e pode determinar que ele, ou qualquer outro, não participe de eventos públicos para evitar riscos à saúde de outras pessoas. Aliás, mais recentemente, ele afirmou que estava com Covid quando deu entrevista a um jornalista, que desconhecia o fato.

A questão é que Djoko não é um anônimo e, queira ou não, faz parte do debate por ser uma figura pública. Ele não precisa ser um modelo de virtude, mas, por ser uma estrela global, deve ser questionado sobre a dimensão moral e social de sua atitude, ao contrário de um agente público, como o presidente da república, o ministro da saúde, os governadores etc. Estes têm a obrigação solene de colocar os interesses públicos em primeiro lugar para preservar a saúde da população, estando sujeitos a penalidades administrativas e penais.

A raquetada de Djokovic é uma influenciadora poderosa, com grande espaço na mídia, não podendo ele se permitir apenas contemplar seu umbigo antivacinal em uma questão decisiva, um match point para a saúde pública. Como outras celebridades, ele deve reconhecer sua imensa responsabilidade sobre a consciência de milhões de pessoas e, sobretudo, unir-se a elas solidariamente.

Em diversas entrevistas, Djoko disse que prefere perder futuros torneios a ter que se vacinar: “Vou viver com as consequências.”

Nesse caso, faço minhas as palavras de Mark Twain: “Não fui ao funeral, mas mandei uma bela carta dizendo que aprovava.”

*Nelson Wilians é empreendedor e advogado

 

Foto: Bruno Van Enck

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